O Diário do Norte do Paraná
http://www.odiariomaringa.com.br/entrelinhas - Acessado em: 21/03/2010 às 17:03:30

...na década de 1960, o entrelaçamento com o tema da liberação sexual e da pílula anticoncepcional colocou a questão em outro patamar, questionando fortalezas que pareciam inexpugnáveis


Da revolução e da liberdade das mulheres

A idéia de revolução impregnou o imaginário da humanidade nos últimos séculos. Originalmente, o termo não tinha o sentido de ruptura, pois definia o movimento circular dos corpos celestes. Principalmente após a Revolução Francesa, passou a definir as grandes mudanças das estruturas sociais. Mais recentemente, seu uso se generalizou para fazer referência a fenômenos os mais diversos: revolução estética, nos costumes, na cultura, nos esporte, nas comunicações etc.

A década de 1960 talvez tenha sido o período em que mais o significado tradicional, ligado aos grandes movimentos políticos, tenha se entrelaçado com esses outros sentidos. Ainda se sonhava com a revolução política, mas a ebulição era suficientemente pluralista para provocar abalos nas mais diferentes dimensões sociais.

Foi a década da juventude, do rock, das lutas dos negros pelos direitos civis, da liberação sexual, da minissaia, da pílula anticoncepcional. Quando a década terminou, a idéia de revolução era visivelmente mais ampla.

A utopia social das mudanças provocadas pelo assalto ao poder entrou em impasse, mas as mudanças ensejadas pela revolução no cotidiano parecem ter adquirido sedimentação.Entre elas, sobressai a revolução feminina e os temas que a envolve.

Sabe-se que o processo de emancipação feminina iniciou-se muito antes. Os acontecimentos que consagraram o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher datam de meados do século XIX.

Entretanto, na década de 1960, o entrelaçamento com o tema da liberação sexual e da pílula anticoncepcional colocou a questão em outro patamar, questionando fortalezas que pareciam inexpugnáveis. A pauta dos movimentos feministas e femininos que grassaram após esse período foi sensivelmente alargada.

No espírito que vem regendo essa coluna, gostaria de exemplificar com manifestações do universo musical, principalmente do rock, o gênero mais emblemático daquele período. A música popular, em todos os gêneros, está povoada por mulheres maravilhosas (musas), por mulheres submissas (Amélias), por mulheres malvadas que magoam os “coitados” dos homens.

Não seria difícil encontrar, no rock daqueles anos, predominantemente machista, exemplos os mais abundantes dessas tendências, mas também é verdade que manifestações libertárias, aos poucos, foram colorindo o temário. John Lennon talvez tenha sido o caso mais emblemático dessa transformação.

Após cantar a garota cruel que gostava vê-lo sofrer (“Girl”), falou da emancipação da garota que deixava o lar ( “She’s leaving home”). Já em carreira solo, em sua fase mais engajada, escreveu versos nada sustis para denunciar a escravidão a que a mulher era submetida (“Woman is the nigger of the world”). No fim de sua vida, legou-nos o lirismo dos versos de “Woman”.

No campo da liberdade da mulher, entretanto, creio que os versos mais impressionantes tenham sido compostos pelo nada engajado poeta canadense Leonard Cohen. Em uma canção às vezes mal compreendida, intitulada Famous Blues Raincoat, ele nos fala de um homem que escreve uma carta dilacerada para o namorado de sua esposa.

Apesar da dor, ele reconhece que o outro tirou a tristeza do olhar dela, tristeza que sempre esteve lá e ele não tinha percebido. No fim, ele diz que, ao voltar para casa, ela não pertencia a ninguém. Como disse Prosper Mérimée a respeito de Carmem, era uma mulher livre.

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