"Para que diabos eu quero isso, se não morri?" "Pense no futuro", ela argumentou com voz aveludada: "Morrer é coisa certa, querido"
Uma senhora elegante
Daqueles dias que nada parece dar certo, ela apareceu de tailleur cinza escuro, salto alto, elegante como francesa; sorriso enigmático: "Pense no futuro, moço!". Ele não era moço, mas gostou. Ainda mais por bela dama, magra e alta. O que parecia começo de história de amor virou susto: "Você não quer comprar uma urna funerária?". "Caixão de defunto?". "Seja elegante, urna funerária".
"Para que vou querer isso, se não morri?" "Pense no futuro". Ela argumentou com voz aveludada: "Morrer é coisa certa, querido". Ele engoliu seco: não gostava de falar em morte para não atiçá-la. Viver era se esconder da morte. O resto, lucro. A bela disse que a morte faz parte da nova etiqueta social: "Pensar na morte é elegante". "Porra, meu!". Ele começava a se sentir confortável em sua discreta deselegância.
Ela disse que pessoas refinadas pensam na vida e também na morte. "Eu sou grosso, bronco e escroto". Ela observou esperta: "Nada mais inconveniente que uma morte inesperada para um homem desprevenido". A divina falava como moça da Natura vendendo xampu. Ele não deu um basta porque a voz dela era agradável, embora o tema não fosse.
Achou brecha para evitar o caixão e perguntar: "Seu nome, moça?". Ela tirou o cartão: "Isabele Montfort - Funerária Morte Feliz". Ele pegou o cartão e pensou: "Será que a morte é tão bela quanto esta dona?". Se fosse não seria de todo ruim. "Você é filha de dona Brigite?". "Minha mãe se chamava Marie Claire".
Ela pediu o número do telefone dele. "Para quê?". "Para ligar, claro". Como todo cara que aposta na loteria esperando ganhar bolada, deu o número. Ela passou a ligar, com regularidade, para dizer: "Pense no futuro, moço". E propor: "Compre uma urna funerária". Sempre respondia: "No momento, não tenho interesse".
Um dia Isabele não ligou mais. Ele achou que a dona desistiu de vender-lhe caixão de defunto. Em vez de aliviado, entrou em profunda depressão. A dama elegante de voz aveludada já era parte de sua vida e mesmo que não comprasse nada, acostumou ouvi-la na esperança de um dia ela o convidar para tomar chá ou vinho e os dois acabarem enroscados sôfregos em uma cama de lençol de linho branco e cheiroso.
Ele pegou o cartão e ligou para Isabele Montfort. Uma voz anasalada de Marlon Brando mastigou as palavras: "Isabele morreu". Lívido no outro lado da linha pensou: "A divina se foi". Só restou o sujeito de voz anasalada no telefone que foi dela. Quando recuperou o fôlego perguntou: "Ainda tem um caixão no estoque que ela deixou?".
A voz rosnou: "Não achei graça". E desligou. Estava sozinho sem ninguém a pedir-lhe para pensar no futuro. Pior: arrependia-se de não ter comprado o caixão de Isabele. Pelo menos teria algo dela consigo: quando ficasse triste, poderia entrar dentro do caixão, fechar a tampa e os olhos e no escuro imaginar-se pronto para se encontrar com ela no paraíso, lugar para onde as divinas vão. Agora, nem isso.

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