O Diário do Norte do Paraná
http://www.odiariomaringa.com.br/milton - Acessado em: 21/03/2010 às 14:56:45

O líder que não liderou

Fazia um calor danado naquele longínquo quatro de janeiro de 1985 quando Tancredo Neves desembarcou em Maringá para ser padrinho de casamento de Roseane Guimarães e Fares Jamil Feres, ela filha do então influente deputado Walber Guimarães, quarto vice-presidente da Câmara dos Deputados na época.

Faltavam apenas 11 dias para a eleição que faria dele o primeiro presidente civil desde a tomada do poder pelos militares vinte e um anos antes e não havia qualquer dúvida do desfecho da campanha que corria no Congresso.

Era tempo de eleições indiretas e a população só participava do processo aplaudindo os discursos nos megacomícios das Diretas Já, fracassadas pouco mais de um ano antes.

Por mais surpreendente que possa parecer, Maringá virou o centro da atenção em um dos períodos mais agudos da história recente do País. Pelo menos por cinco horas, o tempo que Tancredo passou aqui.


Por um dia

Como sabemos agora, o habilidoso mineiro não chegaria a consumar o ápice de sua carreira de mais de 50 anos pela vida da política nacional.

Na véspera da posse, em 14 de março de 1985, ele foi internado no Hospital de Base, em Brasília.

Para o público, a informação era de que tinha sido acometido por apendicite, que o obrigaria a uma intervenção cirúrgica.

Trinta e seis dias depois, a Nação conheceria a verdadeira causa, quando do anúncio de sua morte na noite de 21 de abril.


Olhar de Mona Lisa

Em meio às cotoveladas dos colegas de imprensa que também tentavam uma palavra do líder – na época entrevista coletiva não tinha hora para acontecer, nem cadeira marcada para sentar, era na porta do avião com cada um gritando sua pergunta e torcendo para ser respondida, os cinegrafistas abrindo espaço na base do cascudão e os pobres fotógrafos rebolando para tentar uma imagem que não fosse de um monte de braços cobrindo o rosto do entrevistado –, pareceu-me que Tancredo estivesse meio distante daquilo tudo, como se vivesse em uma bolha invisível, intransponível.

Um pouco pela liturgia do cargo, um pouco pela experiência acumulada, nunca soube ao certo definir sua expressão. Não era de angústia, não era de enfado, não era de regozijo. Era algo etérea e longínqua.

Mas Tancredo foi protocolar, respondeu o que pode – ou quis – e se foi, arrastando atrás de si um cordão de personalidades que mais tarde ocuparia o cenário.
Só um detalhe: Sarney, seu vice na chapa, não veio.


O que foi sem ter sido

É impossível elocubrar como seria o mandato de Tancredo. Teríamos o Plano Cruzado que fez do PMDB o soberano nas eleições de 1996 e que fez Sarney conhecer a glória e o desprezo da população em sete meses? Muito provável que não.

Tancredo não era de radicalizar, ao contrário. Era um jundiá fora d’água.

Mas conseguiria acomodar sob seu governo todos os interesses conflitantes de uma Nação que emergia de duas décadas de jugo militar?

Teríamos encurtado o tempo de transição para uma sociedade menos exposta aos humores da inflação e da corrupção endêmica que sucedeu a saída dos milicos do poder? Anteciparíamos as conquistas sociais que começaram com a estabilização da moeda e agora permitem redistribuição de renda?

Em outras palavras, teria Tancredo o tutano necessário para conduzir o País com austeridade (“não roubar, nem deixar roubar”, dizia) e determinação para um melhor nível de vida da sua população, ou a história nos poupou o esfarelamento de um ícone ao nos legar Sarne, e este sim carregar a pecha de entreguista e fraco, quando na verdade, aquilo tudo que sucedeu sua posse fosse inevitável?

De toda a forma, o que nos resta é a lembrança de um grande líder que não pode exercer a plenitude de sua liderança. Então que seja assim.

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