A música que salva
Doutora em Educação Musical, Magali Kleber fala nesta quarta-feira, dentro da III Semana de Música, sobre como o aprendizado de um instrumento é importante na inclusão social
"Lutamos para que as barreiras sejam quebradas".
Palavras de Magali Kleber, doutora em Educação Musical e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que dá palestra nesta quarta-feira, a partir das 9h30, no Auditório Ney Marques, dentro da III Semana de Música da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Autora de uma tese de douturado sobre como o ensino de práticas musicais pode ajudar na inclusão social de crianças e jovens pobres (ou não), Magali vem a Maringá para falar sobre o tema "Perspectivas e Paradigmas Sócio-culturais na Formação e Atuação do Educador Musical".
A palestra é destinada a professores e educadores, assim como sua tese, mas nada impede que todos saibam as conclusões, que têm (ou buscam ter) influência em todos os setores da sociedade, afinal, um instrumento como o piano, por exemplo, pode, de algum modo, estar interligado com a violência urbana.
"O tema dessa discussão trata de redes sociais. Nenhum ponto está desconectado dos outros, mesmo quando pensamos que não", diz a professora. "É preciso pensar no homem inserido em ações coletivas", explica ela.
É aí que entram as barreiras que precisam ser quebradas, às quais Magali Kleber se refere no início deste texto.
A afirmação da professora diz respeito à idéia de que repertórios eruditos não podem ser ensinados ou aprendidos em locais pobres, como favelas e periferias. Puro preconceito, segundo ela.
"Observei uma orquestra de cordas de uma favela no Rio de Janeiro, onde se ensinava instrumentos como violino, violoncelo, entre outros. É possível ver como o repertório não separa as pessoas do aprendizado de música. É preconceito achar que não podem aprender. Isso faz parte de nossa herança etnocêntrica, com a música pensada como pertencente a apenas uma classe social", explica.
No local
Magali Kleber ficou dois anos fazendo estudo de campo para chegar às conclusões de sua tese de mestrado. Acompanhou de perto vários projetos sociais importantes em grandes centros urbanos.
Em São Paulo, estudou o projeto Meninos do Morumbi, e no Rio de Janeiro o projeto Villa-Lobinhos, ligado ao movimento Viva Rio.
Baseada nesse acompanhamento, a estudiosa enxerga apenas uma saída para o paradigma: educação - no caso dela, educação musical.
Magali diz que é preciso lutar para uma educação musical e artística mais democrática, dando a possibilidade a todos de aprender sem barreiras. E o local para isso é apenas um: a escola.
"É preciso trazer para a sala de aula o mundo das pessoas. Não podemos separar o que ele vive na rua do que será ensinado na sala. No ensino nas periferias urbanas é necessário envolver os valores desses alunos. Na minha opinião, a separação da realidade do que é feito dentro de sala de aula são conceitos ultrapassados", comenta.
A doutora em Educação Musical observa que, quando se ensina um instrumento, ensina-se também uma linguagem e "não só a mexer os dedos". Por isso, é preciso contextualizar os conteúdos. A erudição do repertório ou tipo de instrumento não têm influência.
Lógico, é preciso juntar a isso estrutura física. Segundo a professora, as ações não devem apenas envolver a arte em si, mas vontade e política.
"É necessário posturas políticas ativas para que haja espaços para a educação musical nas escolas públicas. Mas espaços de fato, não apenas no papel. Lugares concretos, com salas de aula, instrumentos, equipamentos de inclusão digital", reitera.
Isso ela viu de perto nos projetos sociais que acompanhou. Em São Paulo, trabalhou com jovens pobres e suas famílias.
"Encontrei muitos meninos que eram delinqüentes. Eles contaram que o trabalho social de educação foi determinante em suas vidas. Muitos se tornaram profissionais a partir dali", revela, como parte das conclusões de sua tese.
Mesmo o Brasil sendo um país pobre, com sérios problemas sociais, de violência, educação e cultura, para a professora, as idéias não são utópicas.
Quando perguntada sobre o assunto, ela diz: "Utópico? O que pode vir antes do ser humano? Lógico que as pessoas precisam comer, vestir, mas elas necessitam existir. Para isso, é preciso ter valores que se conseguem com cultura e educação", diz.
"O ser humano tem senso crítico e isso ninguém tira. Educação é uma forma de construir identidades críticas e alicerçadas", observa Magali Kleber.
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