Teatro do sol nascente
Um dos principais movimentos do teatro japonês mistura o tradicional com o ocidental. Governo do país faz grandes investimentos na produção de espetáculos
Maringá recebeu, na última sexta-feira, uma amostra do teatro japonês. O grupo nipônico 1980 apresentou a peça “Deixa pra lá”, que percorre dez cidades brasileiras em uma turnê comemorativa ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (Imin 100).
O espetáculo foi uma mistura de dança, música e arte cênica, com muitas cores e trajes típicos, em uma história de amor com fundo subversivo.
As características teatrais do espetáculo são uma mostra de um dos mais importantes movimentos que o teatro japonês atravessa atualmente, o Teatro Moderno - que, na verdade, busca a integração entre o tradicional e o contemporâneo, o oriental e o ocidental.
O diretor de “Deixa pra lá”, o coreano radicado no Japão, Kim Sujim, explicou que existe uma forte tendência de se unir o teatro tradicional, em especial o Kabuki, com o chamado “Shinguê” (Novo Teatro).
O Shinguê foi uma tentativa de se implantar o teatro ocidental no Japão, com montagens de obras de autores como Shakespeare e Ibsen, traduzidas literalmente para o japonês.
“Hoje está se tentando incorporar certas técnicas e traduções do próprio Kabuki, com uma aproximação muito grande entre a tradição e o teatro moderno”, diz Kim.
“O que estamos fazendo, talvez seja muito próximo daquilo que o Kabuki era na origem, ou seja um teatro marginal, voltado para o povão. Nosso teatro não é teatro refinado, não é elitizado.”
Esse novo teatro, do qual Kim é um dos expoentes, tem como uma das principais características a expressão de si mesmo. Nesse sentido, esse teatro busca inspiração no Kabuki original, que significa tentar se equilibrar.
“Nesse sentido, o movimento do corpo é a expressão para afirmar a existência individual de cada pessoa”, explica.
Investimentos
Uma outra característica forte do teatro japonês, não apenas da escola moderna, mas também do Kabuki, é o grande investimento que o governo japonês faz nas artes cênicas.
Uma tendência forte, e que tem crescido nos últimos 20 anos, é o financiamento do governo japonês paras turnês internacionais dos grupos do país.
Isso não significa, entretanto, que a situação para atores e diretores teatrais no Japão seja fenomenal.
Se no Brasil os grupos dependem de renúncia fiscal por meio da Lei Rouanet (em que as grandes empresas preferem patrocinar peças com nomes conhecidos, produzidas no eixo Rio-São Paulo) ou sobrevivem graças a um verdadeiro trabalho de resistência para produzir os espetáculos, no Japão a situação não é muito melhor.
“Existe uma tentativa muito parecida com esse esquema brasileiro de renúncia fiscal, mas o Japão não é um país muito rico ainda a ponto de poder fazer uma renúncia fiscal, portanto o que eles fazem é uma política cultural de recolher uma parte do imposto para financiar parte da produção de grupos que sejam relevantes”, conta Kim.
No Japão, esses “grupos relevantes” são escolhidos por uma comissão formada por críticos consagrados e representantes do governo com profundo conhecimento na área teatral.
“Eles costumam assistir a muitas peças que são montadas no Japão para ir descobrindo talentos e qualidades das peças que podem ser eventualmente objeto desses financiamentos.”
Mesmo com essa política cultural, muitos grupos teatrais japoneses precisam ter capital próprio para poder montar as peças. Entre esses grupos que acabam não contemplados pelos recursos governamentais estão os que montam peças comerciais e com atores consagrados no Japão no elenco.
A única exceção é o teatro Kabuki, que, apesar de ter atores famosos, recebe uma verba substancial do governo japonês.
Para Kim, o teatro comercial, que se tornou um criador de grandes estrelas, mesmo não recebendo recursos oficiais pode estar prejudicando a qualidade do teatro japonês.
“O teatro é bastante popular no Japão, só que esse lado comercial, populista, está aumentando e isso também está reduzindo a qualidade do teatro como tal”.
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