O Diário do Norte do Paraná
http://www.odiariomaringa.com.br/noticia/171947 - Acessado em: 04/07/2009 às 8:54:12


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Sábado, 04 de Julho 2009
Geral  |  Entrevista  | Atualizado Domingo, 16/03/2008 às 02h00
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As dificuldades em fazer contato com os índios

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Clóvis Augusto Melo - Correspondente em Curitiba
redacao@odiariomaringa.com.br

 

O sertanista Sydney Possuelo iniciou no indigenismo junto com os irmãos Villas Bôas, no final da década de 1950.

Ele trabalhou na Fundação Nacional do Índio (Funai), que chegou a presidir no período de 1991 a 1993 e organizou e chefiou diversas expedições pela Amazônia brasileira. Em sete ocasiões, estabeleceu contato com comunidades indígenas desconhecidas à época.

Nas décadas de 1970 e 1980 Sydney Possuelo intermediou conflitos entre índios e não-índios. Participando do evento em Curitiba, Possuelo conversou com a reportagem de O Diário sobre as expedições, confrontos, companheiros mortos e das lições que aprendeu nesses 42 anos de atuação indigenista.

O diário - Como era o contato com os povos isolados?

Sydney Possuelo - Onde tem povos isolados você tem que saber entrar. Tem que estar preparado, porque senão eles te matam. Mas isso se fazia antigamente, foi fazendo esses contatos que eu fui vendo o quanto de mal a gente fazia.


Por quê?

Fazia o contato, vinham os problemas. De imediato, de saúde. Nós éramos chamados para pacificar os índios. Ora, o índio tá na sua casa, dentro da sua terra e sai uma turma da Funai para pacificar porque todo mundo que entrava lá eles lutavam. Mas é claro que eles tinha que fazer isso! Eu que era muito tonto e burro, precisei fazer sete vezes contato para perceber que estava errado. Muitas etnias teriam desaparecido totalmente se não fossem os contatos. Mas outras desapareceram por causa desse contato.


Como eram as expedições?

Eram baseadas numa equipe bem forte com muitos homens. Essas expedições demandavam sobrevôos, subidas longas de rios, penetração na selva por vários meses. Às vezes uma expedição é só para saber a área de perambulação deles, onde estão as rotas, as malocas, qual a área de domínio. A tensão é muito grande, você está sempre rodeado, eles sempre sabem primeiro que você está ali.


Qual foi a mais perigosa?

Meu Deus, foram várias! Tive vários companheiros mortos. Os araras foram uma etnia que resistiu bravamente à penetração dos brancos na mata e vivia em luta permanente contra tudo e todos. Os araras nos atacaram, feriram dois companheiros. Os korubos mataram um companheiro meu a bordunadas. Os atroai waimeri mataram dezenas de funcionários da Funai.


Você alguma vez se machucou nessas expedições?

Foi um homem de muita sorte. Quem me machucou muito foram os brancos. Na BR-080, a primeira estrada que chegou no Xingu, fui preso por brancos em um lugar chamado Piaraçu. Um veio e me enfiou o cano do revólver na boca e me quebrou vários dentes.


E os índios, eles nunca te feriram?

Não, mas houve um momento em que quase fui morto. Tinha ido socorrer companheiros feridos na selva e aí senti cheiro de índio, é muito forte o cheiro de urucum. Mas nada aconteceu. Anos depois, uma índia me contou que eu cheguei no local onde estavam os colegas feridos e um índio puxou a flecha a três metros das minhas costas. Outro índio que estava com ele impediu. Não sei por quê.


É possível ao índio se integrar e manter sua identidade cultural?

Quando o último índio for integrado à nossa sociedade, ele deixará de ser índio. Existirá um desaparecimento, não físico, mas cultural.

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