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http://www.odiariomaringa.com.br/noticia/171952 - Acessado em: 04/07/2009 às 17:11:23


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Sábado, 04 de Julho 2009
Cidades  |  Memória  | Atualizado Sábado, 15/03/2008 às 11h42
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Dona Anna e seu pedaço da história de Maringá

Hélice do avião que caiu no centro da cidade em 1957, durante as comemorações de aniversário do município, é guardada com carinho pela família Hundzinski

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Fábio Linjardi
linjardi@odiariomaringa.com.br

 

A dona de casa Anna Maciel Hundzinski, 76 anos, guarda em casa a lembrança de um dia trágico na história de Maringá: a hélice do avião que caiu no centro da cidade, em 1957.

Ela só resolveu revelar o segredo na semana passada, incentivada pela família. O pedaço do avião permaneceu guardado por 51 anos, porque Anna temia complicações com a Aeronáutica.

A peça do monomotor North-American T-6, com mais de um metro de comprimento, é o que restou do primeiro show da Esquadrilha da Fumaça na cidade, durante as comemorações do 10º aniversário de Maringá.

O acidente aconteceu diante de milhares de pessoas que olhavam para o céu limpo na manhã do dia 10 de maio, uma sexta-feira.

Após um vôo rasante pela Avenida Getúlio Vargas, assustando o público, a asa esquerda do avião se partiu ao atingir um mastro de bandeira na Praça Raposo Tavares.

A aeronave caiu metros à frente, na caixa d’água da estação ferroviária, onde hoje fica a Avenida Horácio Raccanello, e explodiu com o impacto. Morreram o piloto e o co-piloto. Ninguém da platéia ficou ferido.

Dona Anna não saiu de casa no dia do show temendo que algo desse errado. Alguns dias antes, ela havia contado para os vizinhos um pesadelo em que o marido morria em um acidente aéreo. O marido de dona Anna era o contador Dinoh Hundzinski, falecido em 2000.

Os dois se casaram em Curitiba e mudaram para Maringá em 1953, onde Dinoh presidiu o Conselho Regional de Contabilidade por 22 anos. Apesar dos apelos de Anna, Dinoh foi ver o show de acrobacias.

Uma das vizinhas para quem Anna lembra ter confidenciado o pesadelo foi Helena Perez, esposa do político Aroldo Leon Perez - 14 anos depois, em 1971, Perez foi escolhido como governador do Estado, sendo afastado no mesmo ano por suspeita de corrupção.

Ao vivo

A queda do avião foi seguida de uma explosão e uma nuvem de fumaça preta, que podia ser vista do terceiro andar do prédio da Rádio Jornal de Maringá, na esquina entre as ruas Duque de Caxias e Santos Dumont.

Naquele dia estreava na Rádio Jornal - empresa associada à Rádio Cultura AM - um novo locutor, de apenas 15 anos: Franklin Vieira da Silva. O novato ficou com a função de estrear no feriado, que deveria ser um dia tranqüilo.

“Ouvi uma explosão e vi a fumaça pela janela. Falei para os ouvintes que havia acontecido um acidente e que iria até o local para ver o que estava acontecendo”, lembra Franklin, hoje presidente do grupo O Diário.

Correria

A notícia do acidente pelo rádio foi ouvida pela vizinha de dona Anna, que saiu de casa correndo para espalhar a informação “Eu estava em casa quando a dona Helena começou a gritar: - Dona Anna! Dona Anna! O seu sonho... caiu um avião!”, recorda a dona da hélice.

Anna ouviu apreensiva o relato que a vizinha reproduzia da rádio e tentou sair correndo atrás do marido, mas foi impedida.

O vizinho da casa da frente de Anna, o radialista Orlando Manin, mais conhecido como o “Zé do Rancho”, da Rádio Cultura AM, estava de folga e se encarregou de sair em busca de Dinoh.

“Não, a senhora vai ficar em casa. Deixa que eu vou lá”, disse, temendo que o pesadelo da vizinha com o marido tivesse se concretizado.

Quatro dias antes, Zé do Rancho tinha avaliado o teste de locução do jovem Franklin e dado sinal verde ao dono da rádio, Joaquim Dutra, para a contratação do menino.

Enquanto Franklin corria no meio da multidão da Praça Raposo Tavares e Zé do Rancho acalmava dona Anna na Zona 2, o contador Dinoh, ileso, estava entre as primeiras fileiras de curiosos que se aglomeravam para ver os destroços da aeronave.

Junto com um amigo ele pegou o pedaço da hélice e se afastou do tumulto. “Olha aqui o seu sonho”, disse para a esposa ao chegar em casa, exibindo, sorridente, o souvennir da tragédia.

Após a transmissão, de volta à rádio, Franklin recebeu a visita do patrão. “Porque você deu a notícia do avião?”, perguntou Dutra, com a expressão séria. O menino gaguejou para explicar, prevendo que seria demitido no primeiro dia de trabalho.

Ao final do relato, o chefe o surpreendeu, abrindo um sorriso e soltando uma expressão que ele ainda não conhecia: “Você deu um furo de reportagem! Parabéns!”. O jovem, 21 anos depois, comprou o jornal de Dutra e, 47 anos mais tarde, a rádio do ex-patrão.

Hoje dona Anna diz que morre de ciúmes da hélice. “Não vendo de jeito algum. Sei que ela é resultado de um acidente, mas, mesmo assim, me traz boas lembranças.”

Outro acidente

Exatamente um mês antes da queda do avião no centro de Maringá, outro acidente aéreo causou comoção na cidade.

Na ocasião, morreu o comerciante e ex-vereador Napoleão Moreira da Silva (o mais votado da primeira legislatura do município: 1952-1956), que dá o nome à primeira praça de Maringá.

O vôo da Real Aerovias em que estava Napoleão bateu no Morro do Papagaio, em Ubatuba (SP), matando 27 dos 30 passageiros e tripulantes.

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