A saúde precisa ser repensada
Um desabafo. Assim pode ser resumida a entrevista concedida pelo superintendente do Hospital Universitário de Maringá (HUM), José Carlos Amador. Com 28 anos de carreira, todos dedicados à rede pública, Amador divide a honra e a alegria de ter sido nomeado para a Academia Paranaense de Pediatria, cadeira que ocupa no dia 25 de março, com a sensação de impotência frente às enormes dificuldades enfrentadas diariamente no HU. "Às vezes eu me sinto o mais incompetente dos incompetentes, porque a solução não depende de mim."
Nesses casos, o consolo aparece não como a melhor alternativa, mas a única. "Já fui chamado à noite porque um funcinário estava aos prantos. O serviço, que deveria ser feito por quatro funcionários, só tem dois. E ele está cansado, não agüenta mais trabalhar assim", conta o superintendente. "De volta para casa, como dormir?"
O lamento sincero do médico vai além da burocracia e falta de estrutura do hospital que comanda há um ano. Para ele, a especialização excessiva da atuação médica e a falta de compromisso de muitas faculdades particulares com a qualidade do ensino e o "produto final" são preocupantes. "Todos são culpados. O médico, o professor e a sociedade. Não temos mais médicos do ser humano, só de partes dele."
O diário - Quem é o médico que se formou em 1980, como o senhor, e o médico que sai hoje da universidade?
José Carlos Amador- Nesses 28 anos a medicina mudou muito. Por certo tempo a pediatria foi desvalorizada e hoje temos falta de pediatras no mercado. As principais residências do Brasil reduziram o número de vagas por falta de profissionais interessados.
Como a pediatria foi desvalorizada se o que não falta é criança para atender?
Basicamente, por remuneração. O pediatra ainda é um clínico geral, tem que atender a criança como um todo. Ele faz três consultas em uma, da criança, da mãe e da avó. Isso não foi reconhecido, aí começou o problema. Os médicos optaram por trabalhar em especialidades mais simples, que tivessem remuneração melhor. Em compensação, outras especialidades começaram a se destacar, principalmente as ligadas à beleza. A migração dos recém-formados foi grande.
Essa realidade foi só da pediatria?
Não. A perda mais importante foi da clínica médica. Temos médico para a cabeça, para o coração, para o cabelo, mas não temos para o ser humano. Aquele que conhece todo o corpo do paciente e trabalha o ser integral, holístico. Praticamente não existe mais a especialidade de clínico geral, o médico faz seis nos de graduação e mais três de clínica médica.
Sempre pensei que ao final da graduação o médico já atuasse como clínico. Não, precisa fazer residência. Elas praticamente sumiram. E nós estamos pagando um preço muito alto por isso.
Foram as especialidades que transformaram o paciente em partes ou foi a exigência do paciente que obrigou o médico a retalhar o atendimento?
Todos são culpados. O médico, o professor e a sociedade. Os problemas começaram na formação deteriorada. Abriu-se uma quantidade muito grande de escolas de medicina, que têm professores mal preparados. E eles formam o quê? Alunos mal preparados. Hoje o HU é campo de estágio de várias profissões, da UEM e de outras escolas, que não têm hospital. Quer dizer, criam-se escolas sem ter base, como se fossem indústrias.
Nos postos também têm estágio?
Sim. Somos favoráveis a que os alunos sejam acompanhados no posto de saúde. Mas o professor vai junto? Ele tem responsabilidade com o paciente que o aluno está atendendo? Criou-se um número grande de escolas de medicina como se isso fosse resolver o problema de saúde do Brasil.
A medicina deixou de ser uma vocação para ser um curso técnico?
É um comércio. Não existe mais o relacionamento médico-paciente. O aluno não aprende mais isso na escola. Um aluno que paga R$ 3 mil, R$ 4 mil de mensalidade vai se sujeitar a trabalhar no SUS para receber R$1.200,00?
Dificilmente.
Ele vai querer uma especialidade que seja rentável a ponto de pagar o que ele gastou. Então ele vai se dedicar à dermatologia cosmética, cirurgia plástica. etc. Precisamos desses profissionais? Claro que sim. Nessa quantidade? De jeito nenhum. Precisamos de pediatra, de clínico geral. E ele vai querer isso? Não, porque não aprendeu na escola. Seu professor foi de giz, que dá aula no quadro negro. Ele não teve professor para acompanhá-lo no exame com o paciente porque a escola dele não tem hospital. É um erro achar que a solução é um hospital terceirizado.
Qual foi a lição mais importante que o senhor aprendeu na escola?
Foram duas. O respeito ao ser humano e a dificuldade que é o relacionamento entre médicos. Essa eu aprendi no último dia de residência, em Londrina. Um professor teve que assumir o atendimento de uma criança muito grave que veio de outro hospital. Ela estava sendo atendida por dois médicos diferentes. Eles se desentenderam, ela piorou e meu professor assumiu o caso no HU.
O senhor acredita que o paciente tem idéia dessa dimensão que é o atendimento à saúde?
Não. Mas devia lutar por isso. O bom profissional é aquele que não interfere na evolução normal da doença. Na enorme maioria das vezes, ela tem início e fim bom, independente do que se faça.
Como a gripe?
Sim. O médico dá conforto, pede para tomar bastante líquido e orienta repouso. Em sete dias ela vai embora. Conversar faz um bem enorme para os dois. Ao mesmo tempo, o paciente tem que ter postura de consumidor. Tem que exigir qualidade do médico. Qual escola ele cursou? Onde fez residência? Qual foi o último livro que leu? E o último congresso de medicina que fez? Parece que isso não é levado a sério. Antes o paciente precisava de um médico, agora ele precisa de cinco. Isso está ficando muito caro. Não existe plano de saúde, muito menos sistema público em condição de pagar por isso.
Como o senhor se sente em relação às dificuldades do HU?
Muito chateado. Estou perdendo uma pediatra altamente qualificada por não poder contratá-la. Fico triste saber que um paciente procurou o hospital e não foi atendido porque não tinha vaga, ou ouvir de um médico que não pode fazer tal procedimento porque falta aparelho. Já fui chamado à noite aqui porque havia um funcionário chorando. Em um serviço onde deveria haver quatro, eles estão trabalhando em dois. E ele está cansado, não agüenta mais trabalhar assim. Vim consolá-lo, dizer que estamos tentando conseguir mais gente. E aí o desespero passa a ser meu. Como volto a dormir? Fico me sentindo o mais incompetente dos incompetentes porque estou aqui e não posso resolver . A solução não depende de mim.
Depende do quê e de quem?
Passa por uma série de coisas. Reclamamos das secretarias estaduais de Saúde, Ciência e Tecnologia e Planejamento, que têm boa vontade em resolver, mas eles têm todos os meus problemas e mais os dos hospitais de Cascavel e Londrina. Os recursos são finitos e os problemas, infinitos. Mas quem está aqui sou eu. E só eu sei o quanto é difícil não ter solução.
Médico e paciente precisam se reconquistar?
Sim. O médico talvez seja o elo mais importante, porque hoje o paciente não é mais dele. É do sistema, de plano de saúde ou cooperativa. Então o médico tem que lutar para conquistar esse paciente, conversando mais, consultando mais vezes.
E o paciente?
Entender que não precisa de tanto exame nem de tanto remédio. E exigir do seu plano que tenha direito de consultar com o seu médico. Tem plano que só libera uma consulta por mês. Qual é a doença que dura um mês? Não existe. Uma pneumonia, se não resolver em uma semana, com ou sem remédio, ou o paciente melhorou ou morreu.
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