O limite não é o céu
Viciados em download são poucos, mas dão um trabalho... A Net/Vírtua, por exemplo, diz que apenas 3% dos seus clientes domésticos de acesso à internet em alta velocidade consomem nada menos que 60% do tráfego da operadora. Números assim têm levado a Net, assim como a TVA (que fornece o serviço de acesso Ajato), a "castigar" os glutões com cortes abruptos nas velocidades contratadas. Isso é bom ou é ruim?
Vamos com calma. Toda vez que contrata um plano de acesso veloz junto às duas operadoras, assim como em outras que trabalham com acesso via rádio, o cliente recebe também uma franquia de consumo de downloads/uploads, que passa a ser o seu limite de tráfego - é coisa de 40Gb, 50Gb, variando conforme a velocidade contratada. Muitos, no entanto, têm extrapolado essa franquia e acabam sofrendo as conseqüências. Pior: a reboque, prejudicam os outros assinantes do mesmo serviço.
Então, nesta "guerra", quem está errado: a operadora, que deveria investir mais em infra-estrutura, ou o consumidor "guloso", que deveria controlar seu desejo de baixar filmes, músicas e seriados de TV? Parece não haver santos nesta história, sendo que as operadoras têm a seu favor o fato de estarem agindo estritamente dentro da lei, já que expõem as condições em contrato e avisam aos usuários (por email e telefone) quando vão aplicar o castigo e diminuir suas velocidades.
O limite de tráfego existe por conta do compartilhamento de banda em serviços de acesso via cabo e/ou rádio. Isso faz com que a operadora seja obrigada a frear o consumo de quem anda gastando demais para que não falte banda para os demais clientes.
Uma analogia que a princípio pode parecer forçada mas que pode deixar a situação mais clara: em um prédio, uma enorme caixa d´água é dividida por todos os condômimos. Só que o morador X e o morador Y decidem tomar mais banhos que os vizinhos e, assim, consomem mais água do que deveriam.
Resultado? Se a água não for reposta continuamente, ela vai faltar. E quem vai pagar o pato vai ser quem consome menos. Simples assim.
De acordo com Eduardo Guedes, gerente de produtos de banda larga e telefonia da Net, as restrições ao excesso de downloads seriam para preservar a alta velocidade de todos os usuários, uma vez que eles compartilham a banda da operadora. Se fosse aplicado, aqui, o caso do prédio, o cano seria a banda larga; a franquia, a quantidade de baldes de água que cada morador pode consumir.
"Se um morador deixasse a torneira ligada, chegaria um momento em que ninguém teria água", diz. Mas será que os consumidores vorazes, que já sofreram castigos por excesso de downloads - em alguns casos, clientes de 2Mb de velocidade acabam ficando um mês acessando a 200kbps, às vezes menos - concordam com as punições? E eles sabem que estão agindo de forma "errada"?
Segundo o designer Rodrigo Darin, que acabou de amargar um mês sem banda larga, a Net avisou muitas vezes que ele estava passando da cota; e ao mesmo tempo tentou coagi-lo a contratar um pacote com maior limite para os downloads e uploads. Além disso, diz ele que, caso decidisse aumentar o plano, o período de fidelidade à operadora aumentaria em mais um ano. "Você também não tem como provar que não usou o que eles dizem que você consumiu", diz Darin.
O designer, no entanto, ameniza a atitude da operadora ao castigá-lo. "Dá para entendê-los porque sei que muito pouca gente consome muita banda. Mas as operadoras precisam perceber que o conceito de utilização da internet está mudando", diz. "Eu, que trabalho com imagem, acabo fazendo muito upload, transfiro muitos arquivos pesados. Entendo também que o Brasil é um território enorme, mas em vez de as operadoras investirem em infra-estrutura, querem aumentar cada vez mais a quantidade de clientes mantendo a mesma estrutura", critica o designer.
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