A volta dos fanzines
Revistinhas artesanais consagradas à divulgação das várias formas de arte underground voltam à cena em Maringá depois de um período à sombra da internet
Em tempos de internet, ainda há quem acredite no poder dos meios de comunicação alternativos. Por incrível que pareça, em Maringá e região existe um movimento fanzineiro que, embora não seja dos maiores, tem manifestações interessantes.
Para quem nunca ouviu falar, o fanzine (ou simplesmente zine) é um tipo de revista que pode ser feita por qualquer pessoa, desde que tenha algo a dizer de forma criativa. Tradicionalmente, é feito de forma bem artesanal, com os textos e desenhos impressos, xerocados, dobrados e grampeados.
Quando surgiu, o fanzine ganhou esse nome por ser a junção de dois termos em inglês: fanatic magazine. Ou seja: revista feita por fãs.
No início, homenageavam bandas, podendo também tratar de cinema, histórias em quadrinhos, ficção científica, poesia, feminismo, vegetarianismo, entre outros. Na década de 60 eram muito comuns, como um elemento da contracultura.
O termo se espalhou de tal forma que hoje engloba qualquer tipo de publicação amadora que não tenha o lucro como principal objetivo. É uma forma de comunicação barata, fora do circuito comercial e sem grandes preocupações, como uma periodicidade fixa.
O primeiro zine brasileiro de que se tem notícia foi o “Ficção”, criado por Édson Rontani, em Piracicaba (SP). O ano era 1965.
Locais
Em Maringá, os primeiros fanzines surgiram em fins da década de 80, como lembra o arte-finalista Alex Molina (Alex-8), que não quis revelar a idade. Ele e o amigo Alan Bariani, 28 anos, criaram o “Delirium Zine” na década de 90, para falar sobre bandas de que gostavam.
Hoje, o “Delirium” publica apenas cartuns feitos por eles. “Fazemos mais por hobby e para participar dessa cultura underground”, diz Alex. “É uma ficção da vida real, com temas do cotidiano”.
Eles contam que para fazer um fanzine é preciso ter tempo e dedicação. “São os nossos ‘filhos’. A gente divulga o nosso trabalho de forma barata, sem precisar ir atrás de um editor”, conta Alex. Assim, acabam conhecendo gente do Brasil inteiro nas feiras e eventos onde expõem seus trabalhos.
Em 1996, outro fanzine surgiu em Maringá: “Mulher-sapo bóia”, com textos sobre cinema e música. Teve curta duração.“As pessoas com quem eu fazia saíram da cidade”, explica Paulo Sérgio Agostinho, 35.
“Então, em 2002, fazia Filosofia e achava tudo muito sério. Aí, de brincadeira, surgiu o ‘Esmegma de Kierkegaard’, uma miscelânea de textos. O nome me pareceu sonoro”, brinca Agostinho, que é baterista da banda Bryan Oblivion e Seus Raios Catódicos.
Mais recentemente, em 2006, apareceu o “Oh!Vida privada”. Impresso em gráfica, o zine traz poesias e desenhos.
“A gente reclamava muito que aqui não tinha fanzines e resolvemos fazer o nosso, mas somos bem descompromissados, fazemos quando dá vontade, baixa inspiração e sobra grana. As pessoas mandam poemas, escolhemos os de que mais gostamos e fazemos os desenhos também”, explica Flávia Carvalho, 19 anos, estudante de Direito.
“Considero o fanzine um fetiche. É gostoso fazer, imprimir, distribuir. Acho que sumiram por falta de interesse da população mesmo. Agora estão ressurgindo”, comemora Lucas Dólis, 19 anos, estudante de Química e um dos responsáveis pelo “Oh! vida privada”.
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