Classe C cresce 35% em dois anos e aquece economia
Número de brasileiros com renda familiar média de R$ 1,1 mil chega a 86 milhões de pessoas, que aproveitam facilidade de crédito e vão às compras
O número de brasileiros com renda familiar média de R$ 1,1 mil - a classe C da economia-? chegou a 86 milhões de pessoas em 2007. Isso significa que a migração entre classes fez que essa faixa concentrasse mais pessoas do que as classes D e E juntas. Com mais gente ganhando melhor, há mais dinheiro girando na economia e maior pressão sobre o consumo. A classe C aquece a economia do País.
Os dados, que englobam o período compreendido entre 2005 e 2007, são de um estudo encomendado pelo grupo francês PNB Paribas ao instituto de pesquisa Ipsos. A pesquisa mostra que houve um encolhimento das classes de consumo D e E de 51% para 39%. Já para as classes A e B houve uma estabilidade (15%) no período. A classe C ?bombou?: passou de 34% em 2005 para 46% em 2007.
O crescimento populacional registrado no País nesse meio tempo - de 182 milhões para 184 milhões - por si só não justifica a 'engorda'. Em números absolutos, a pesquisa do Ipsos registra que a classe C apresentou um aumento de 23 milhões de pessoas entre 2005 e 2007.
O economista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcelo Curado, não tem dúvidas de que a classe C tem sua parcela de contribuição no aquecimento da economia. "Ela tem papel fundamental no aumento da demanda, sobretudo de bens de consumo duráveis e alguns não-duráveis também", comenta.
Por conta disso, essa faixa tem alguma responsabilidade sobre o crescimento do índice de inflação. "Mas é importante destacar que há fatores externos que pressionam a inflação, como o aumento dos preços das commodities e dos alimentos no mercado internacional", explica Curado.
O economista salienta que não houve um aumento de renda da classe C do ponto de vista individual, logo o mecanismo chave para que o pessoal inserido nessa faixa finque o pé no consumo ainda é o crédito.
Se por um lado o volume de crédito e as facilidades de acesso têm permitido o consumo de bens como eletrodomésticos e até automóveis, por outro pode resultar numa ressaca com um gosto amargo de déjà-vu: a inadimplência por conta de flutuações na empregabilidade e no próprio desempenho da economia.
A classe C, em função do endividamento e das incertezas que são inerentes à atividade econômica, pode se transformar no "sub-prime brasileiro", repetindo o problema vivido pelos americanos com a concessão de empréstimos indiscriminados a pessoas de baixa renda e que resultou na crise dos EUA.
"Esse é um perigo grande, pois há casos de pessoas dessa faixa financiando bens em 60, 72 ou até mais de 80 meses", alerta o professor da UFPR. "A capacidade de pagamento tem uma flutuação, nada garante que o bom período da economia vá se sustentar. E esse pessoal tem menos defesas numa situação de flutuação do emprego", ele justifica.
Mas o próprio economista trata de dissipar as nuvens negras, pelo menos em um horizonte próximo. "No curto prazo, a classe C deve continuar bem e a tendência é de consumo alto, respondendo por parcela significativa da procura por crédito e pressionando os componentes da demanda", prevê Curado.
Comportamento
O economista André Brás, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explica a forma como a renda modifica o comportamento do consumidor. "A classe A é imprevisível, a cesta de consumo pode conter desde carro importado até iate", ele compara. "O consumo da B e da C compõe-se basicamente dealimentação e serviços."
Entre os serviços, estão cursos formais e de línguas, atividades esportivas, passeios de férias, entre outros. "Quando melhora a qualidade de vida, isso acaba expandindo o leque de consumo dessas famílias. Elas começam a ir ao cinema, compram eletrodomésticos, carro, computador", enumera Brás.
O economista da FGV destaca que justamente esse tipo de consumo de bens duráveis é que foi o alvo das últimas intervenções do Banco Central (BC) no mercado, através da elevação das taxas de juros. "Quando o BC aumenta a taxa de juros, está sinalizando para o mercado que há comprometimento de metas e controle inflacionário. E desacelerando um pouco a economia."
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