Antônia e Ana Paula vão às compras
Num efeito cascata que teve início com o controle da inflação na década passada, a estabilidade econômica atraiu investidores, o que resultou em uma maior produção e, como conseqüência, na oferta crescente de empregos. Um número maior de assalariados passou a consumir e, com o consumo interno maior, a economia atraiu uma nova onda de investimentos. Estava fechado o círculo virtuoso que permitiu, entre 2005 e 2007, a ascensão social de 23 milhões de brasileiros, gente que deixou a pobreza para ingressar na classe C, a porta de entrada da sociedade de consumo.
Com a classe C inchada e com mais crédito na praça, famílias que antes empenhavam todo o rendimento em alimento e moradia - isso nos idos de altas taxas de inflação e remarcação diária dos preços - agora vão às compras.
Cerca de 52% dos maringaenses fazem parte desse estrato social, que geralmente não tem condições de pagar à vista, mas que está conquistando bens de consumo duráveis através das compras a prazo, com juros altos e prestações a perder de vista.
De acordo com pesquisa do instituto Ipsos, sobre a intenção de consumo da classe C para 2008, 27% dos entrevistados declararam que vão investir em eletrodomésticos, 27% em móveis, 14% em televisores novos e aparelhos de som, vídeo e DVD, 10% em computadores para a casa e 8% e 5% em carros e motos, respectivamente. É o que tem feito, aos poucos, Antônia Aurora Garcia, 75 anos, aposentada que mora em Maringá há 61 anos.
"Acabei de comprar uma máquina de lavar roupas, em dez prestações de R$ 130. Quando terminar de pagar a máquina, quem sabe eu compre um desses televisores grandões, porque o da minha casa já tem mais de dez anos", comenta Antônia, que nos últimos anos trocou de geladeira, guarda-roupa, fogão e sofá. Também comprou um colchão novo de casal, "aquele ortopédico".
O segredo dela - o mesmo da maioria das pessoas inseridas na classe C - é a união familiar. Na casa de Antônia, que vive com o marido, também aposentado, moram a filha, o genro e os dois netos. Com quatro pessoas trabalhando (os netos ainda são pequenos), o pouco que cada um contribui viabiliza a compra de bens duráveis, sem comprometer o orçamento. Assim, a família Garcia tem feito pelo menos uma grande compra por ano, como foi o caso da máquina de lavar.
Em Sarandi, outra família partiu para uma compra maior, o primeiro veículo, uma motoneta Biz. "Financiei a moto em 36 vezes de R$ 272, sem entrada", diz a jovem Ana Paula Ribeiro, 20, contratada há três por uma loja de móveis, o primeiro emprego dela. "Quando terminar de pagar, vou dar a Biz de entrada numa Twister", acrescenta.
Ana Paula mora com a mãe, Lormina, 48 anos, servidora municipal. Quando apenas uma tinha rendimento mensal fixo, bens duráveis que elas possuem hoje eram apenas fruto do imaginário. "Com ela (Ana Paula) trabalhando ficou tudo mais fácil", conta Lormina, que está pagando as prestações de uma geladeira nova e, recentemente, ganhou um fogão quatro bocas de presente da filha, que também recorreu à compra a prazo.
Gerente da Magazine Luiza em Maringá, Paulo Marques, que há 15 anos trabalha em lojas de departamentos, diz que o aumento das vendas está diretamente associada ao crédito facilitado.
"Os preços estão bem mais acessíveis. Hoje tenho televidores LDC de 32 polegadas por R$ 1.799. Há dois anos o mesmo aparelho custava R$ 3.500", explica, informando que as compras, no carnê ou no cartão, podem ser feitas em até 24 vezes - porventura mais, em ocasiões especiais.
"O que mais está vendendo hoje são os televisores, máquinas fotográficas digitais e notebooks. Produtos que há alguns anos pouca gente podia comprar", comenta o gerente da Magazine Luiza em Maringá, acrescentando que, o volume de bens duráveis consumidos pela classe C não pára de crescer, ao menos na loja que ele administra.
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