Maio de 68, ainda indecifrável
Quarenta anos depois, as revoltas estudantis continuam rebeldes a todas as interpretações, teorias e recuperações. Cada um as colore com seus próprios pincéis
Estamos quase em maio, esse belo mês, com sua suave luminosidade, os lírios do campo, o verde, as rosas e, como acontece a cada dez nos, as comemorações do maio de 1968, as amplas revoltas estudantis que não conseguiram demolir o governo francês mais poderoso e mais respeitável do século, o governo do general de Gaulle.
Nenhuma cerimônia de aniversário, mas muitas reuniões, artigos, livros, um "espírito da época". Por que tantos discursos? Em primeiro lugar, porque 40 anos se passaram. Um lapso de tempo que dá àqueles eventos um "ar histórico".
Além disso, o presidente Nicolas Sarkozy, quando ainda era um homem "glorioso" e não um "ineficaz" (ou seja, há um ano), ele se definiu como "o homem que ia liquidar maio de 68". Bravo Nicolas! (alguns meses depois, Sarkozy casou-se com uma espécie de ressurreição dos estudantes de maio de 68, a bela Carla Bruni, "queridinha" da "esquerda festiva", superlativamente).
E de novo percebe-se que maio de 68 continua rebelde a todas as interpretações, teorias e recuperações. Cada um colore maio de 68 com seus próprios pincéis, com cores que, segundo o caso, são ou anarquistas, ou festivas, utópicas, tirânicas, sexuais, dirigistas, individualistas, comunitárias etc.
Maio de 68 é um episódio incompreensível sobre o qual todos os modelos apenas resvalam. Mesmo com 40 anos de distância, ninguém sabe realmente o que foi exatamente. É um "objeto histórico não identificado", não identificável; não se parece com nada. E nada do que se faz ou do que se pensa hoje poderia se dizer que é um eco, um reflexo, mesmo deformado, de maio de 68.
Por exemplo, hoje, nesta primavera de 2008, as ruas de Paris ferveram, com alunos, estudantes, professores, gritando. Imediatamente, os jornais evocaram uma espécie de "prolongamento" ou um obscuro "retorno" de maio de 68.
Ora, basta ouvir os slogans gritados hoje para compreender que são antípodas daqueles de 68. Em maio de 68, os estudantes se manifestaram contra a disciplina, contra os mestres que impunham uma ordem austera, contra as faculdades onde os professores, os "mandarins", davam seus cursos em toga e arminho.
Maio de 68 queria, ao contrário, que as obrigações e as lições desaparecessem, que os exames fossem abolidos, que os professores se recolhessem no seu canto, que as idéias se fizessem sozinhas, por partenogênese, por qualquer um e por todo o mundo. Em 2008, os netos dos magníficos doidivanas de 68 são sérios como cardeais.
Invadem a rua para reclamar o contrário da liberdade cara a seus "jovens avós" de 1968: eles querem mais professores, mais lições para "decorar", mais disciplina, mais exames, mais seriedade. Os manifestantes de 68 eram alegres como as borboletas, os loucos, os malabaristas. Os de 2008 são circunspectos, angustiados. Têm medo de seus estudos, da profissão que não vão encontrar, da sociedade macilenta que os aguarda.
Salvo alguns casos um pouco patológicos, os estudantes de 2008 não falam em revolução, mas de ordem, regulamentos. Empreendem um combate corporativista, sem jamais questionar as estruturas da sociedade presente. Querem apenas melhorar as engrenagens e sobretudo que os mestres os façam trabalhar, que os preparem para a sua futura inserção, sem dramas, na sociedade liberal.
Em maio de 68, o termo "revolução" estava em todas as bocas. E cada grupo desse "conjunto em fusão", como disse Sartre, produzia seu próprio modelo de revolução. Cada um tentava trazer novamente à tona uma antiga revolução fracassada ou subvertida.
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