Gripe A: Lições de pandemias passadas
Pandemias (epidemias tão amplas que afetam todo o globo) ocorreram muitas vezes nos últimos séculos. A maioria dos virologistas antecipava ser inevitável uma nova pandemia neste século, como o presente vem confirmando. Pelo grande potencial pandêmico que possui, a influenza é uma das mais importantes doenças infecciosas dos seres humanos.
Há 90 anos, ocorria a pandemia de influenza considerada como um dos maiores desastres naturais da história da humanidade, causando a morte de 50 milhões de pessoas. Após 1918, ocorreram mais dois surtos pandêmicos de influenza – em 1957, com a Gripe Asiática, e em 1968, com a Gripe de Hong-Kong.
Há diferenças em relação à pandemia atual. No aspecto virológico, a principal delas é a total modificação do vírus, de origem suína, sem nenhuma relação genética com os vírus das pandemias passadas, de origem aviária.
Esta modificação extrema fez as autoridades imaginarem que a agressividade do vírus poderia ser semelhante à de 1918. Os dados, no entanto, mostram uma maioria de casos leves, com taxa de mortalidade menor que 1%. Logo, a pandemia atual teria menor mortalidade e contagiosidade quando comparada à de 1918.
A interpretação destes dados preliminares levou algumas autoridades a diminuírem a importância da situação atual. Em 1918 ocorreu o mesmo fenômeno: a doença começou com uma primeira onda moderada no início do ano e retornou numa segunda onda de extrema agressividade poucos meses depois.
Ficam claras algumas limitações que podem ocorrer caso haja uma progressão da pandemia atual no intervalo de um ano: uma vacina não estará disponível em menos de 6 meses, os medicamentos necessários não serão produzidos em quantidade suficiente e o sistema hospitalar de saúde poderá entrar em colapso.
Com as dificuldades e limitações do sistema de saúde, a tendência é a utilização de medidas não farmacológicas para minimizar o impacto da pandemia.
Em 1918, nos EUA, as pessoas receberam máscaras e foram implementadas medidas de ‘distância social’ (fechamento de instituições de ensino, proibição de eventos públicos, isolamento dos doentes e orientação para que as pessoas ficassem em casa).
Nenhuma das medidas, isoladamente, foi suficiente no combate. Mas as cidades que adotaram mais medidas no mesmo momento tiveram menor mortalidade.
A variável tempo é importante. Quanto mais precoces e duradouras as medidas, melhores os resultados. Cidades que implementaram as medidas precocemente tiveram a metade da mortalidade em relação àquelas que começaram tardiamente.
Por outro lado, cidades que mantiveram as medidas por menos de 6 semanas tiveram uma segunda onda da influenza. Um problema é a manutenção da aderência da população às medidas – em 1918, as pessoas chegaram a rasgar suas máscaras durante um protesto em São Francisco.
Os dados das epidemias passadas são de grande valor pedagógico, tanto para demonstrar o valor da história como sua ironia. A ironia é que agora, 91 anos passados da pior pandemia da história da humanidade, ainda entendemos pouco sobre os aspectos fundamentais da transmissão da influenza e nos baseamos em resultados empíricos de quase 100 anos atrás.
O termo “clioepidemiologia” é usado por muitos autores para se referir à exploração e re-análise de informações históricas, buscando trazer reflexões em relação às preocupações atuais. Um pouco de clioepidemiologia nas pandemias passadas poderá nos ajudar a evitar os mesmos erros.
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