Lixo e produtos químicos poluem riachos de Maringá
Não há exceções: os córregos que passam pela área urbana estão poluídos, tanto pelo que é jogado nas ruas, como pelas descargas clandestinas de esgoto nas galerias pluviais
Plásticos, pneus, lixos domésticos, restos da construção civil e corpos de animais são apenas alguns dos materiais visíveis nos leitos das águas na área urbana de Maringá.
Mandacaru, Diamante e Moscados, por exemplo, além de acumularem esses lixos, também têm problemas com erosão e produtos químicos menos evidentes a olho nu.
O perímetro urbano tem 32 córregos e ribeirões. E não há exceções à degradação: a variante é apenas quanto ao nível de poluição, pois uns estão mais sujos e outros menos.
O ambientalista Cláudio José Jorge, presidente da ONG Funverde, que todos sábados à tarde faz uma ronda pelos cursos d’água do município, não tem nenhuma dúvida que todos rios da cidade estão poluídos.
Numa rápida visita aos córregos Mandacaru e Maringá, na quinta-feira, a reportagem e Jorge não precisaram caminhar mais do que alguns metros às suas margens para encontrar grande quantidade de materiais poluentes.
“Este aqui é o lixo que as pessoas jogam nas ruas e vem parar no rio através das bocas de lobo”, disse, apontando para uma galeria no Mandacaru, na qual um galho de árvore ajudava a conter sacos plásticos, pedaços de pano, latinhas de bebidas e garrafas PET.
Química no Cleópatra
O córrego Cleópatra, que recebe as águas do Moscado e do Betty - eles nascem no Parque do Ingá e no Horto Florestal, respectivamente -, também apresenta sinais de poluição química, além de muito lixo urbano.
A pouco mais de 100 metros da ponte sobre ele, no Contorno Sul, no domingo passado foi possível ver uma tubulação jorrando um liquido fétido de cor esverdeada. Em contato com a água do córrego, o liquido produzia muita espuma. Nas proximidades, à parte alta da margem esquerda, existem várias empresas.
Dona Tereza Saugu da Cunha, de 73 anos, que reside em uma chácara próxima ao córrego Maringá, depois do Conjunto Ney Braga, contou que “jogam resto de construção ali perto da ponte”, na rua Gralha Azul.
“Tem até resto de carcaças de bois. Acho que são jogadas por açougues da cidade. Depois, fica muito mau cheiro”, reclamou. Ali mesmo no Ney Braga, Jorge mostra uma nascente muito próxima do asfalto: “Aqui, pavimentaram sem respeitar a distância prevista em lei, que são 50 metros das nascentes e 30 metros dos cursos d’água”. A nascente fica a menos de 15 metros do asfalto.
Cerca nos vales
A Prefeitura de Maringá está desenvolvendo estudos para identificar os principais poluidores dos rios da cidade. As ligações clandestinas de esgoto nas galerias pluviais - que acabam nos cursos d’água, são transgressões muito comuns às leis ambientais.
Os suspeitos são, em grande parte, empresas sem sistema de tratamento de efluentes, como postos de combustíveis, lavanderias, lava-jatos e outras.
“Há empresas que não têm um sistema de gerenciamento de resíduos, falta caixa de tratamento antes de lançá-los no ambiente”, disse Sérgio Antônio Viotto Filho, diretor da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
Sem tratamento, explicou Viotto, os resíduos químicos reagem em contato com a água e ambientes úmidos como as galerias e liberam odor forte, espuma, além de mudar a coloração da água.
“A maior preocupação é com efluentes compostos por metais pesados, como o cromo, chumbo, mercúrio e com os óleos industriais”. A secretaria não tem estimativas de quantas ligações clandestinas existem na cidade, mas espera que os estudos que estão em andamento apontem a quantidade aproximada e, assim, seja possível uma fiscalização mais eficiente.
Despistar a fiscalização
Segundo Viotto, as grandes empresas poluentes usam de artifícios para enganar a fiscalização. “Eles lançam os efluentes durante a madrugada de forma que, até chegarem ao rio onde serão constatados, já se apagaram os rastros da origem”.
Disse que na maioria das vezes, os poluidores lançam os efluentes na sexta-feira, quando os órgãos fiscalizadores estão com o efetivo reduzido. “Na segunda-feira, já fica difícil identificar o emissor, mas quando ele é localizado, é notificado e depois multado”.
Mas, apesar de tudo, disse que ainda “existe vida nos córregos de Maringá. É possível ver peixes pequenos. O que precisa é conscientização da necessidade de preservar”.
Objetivando a preservação de rios e córregos, a prefeitura está cercando todos os fundos de vale, que somam cerca de 70 quilômetros no perímetro urbano e servem como corredor ecológico para a fauna da região.
O projeto também propõe o plantio de espécies nativas e frutíferas, mas o presidente da Funverde reclama que a fundação tem 5 mil mudas de 400 espécies prontas para replantar, mas não consegue ajuda: “Pedimos para a prefeitura abrir as covas, mas não conseguimos nada”, reclamou Jorge.
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