O desafio do erudito em Maringá
O curso de Música da Universidade Estadual de Maringá (UEM) foi fundado há sete anos e começou a dar um novo rumo para a cultura da cidade no sábado, com a primeira apresentação de sua orquestra.
Fundada oficialmente há três meses, a orquestra da UEM reúne 42 músicos, entre alunos e profissionais que atuam na cidade. Isso é só o começo, adianta o regente da orquestra, Rael Bertarelli Gimenes Toffol, de 33 anos, professor do Departamento de Música da UEM há seis anos.
A meta é a de que até o final deste ano a orquestra possa realizar apresentações mensais. Toffolo conta que ainda tem dois planos para a recém-formada orquestra.
O primeiro é formar uma sinfônica. Para tanto, é necessário encontrar músicos que dominem o oboé e o fagote (instrumentos de sopro). Toffolo ainda não encontrou músicos para esses instrumentos na região.
A segunda etapa é que a UEM tenha sua orquestra profissional, nos mesmos moldes da que existe na Universidade Estadual de Londrina (UEL). O maestro se empolga ao falar sobre o público de Maringá, garantindo que há campo fértil para apresentações de músicaerudita. O primeiro passo para conseguir mais adeptos já foi dado.
“Cada música exige seu rito próprio e, no caso da erudita, o necessário é concentração e tranquilidade para curtir. Existe todo um discurso lógico por trás da música erudita”.
“Ela (a orquestra) é um espaço de formação, que é importante para o curso. É uma responsabilidade social, mas também uma responsabilidade didática que a gente tem que ter’’
O DIÁRIO - Qual o desafio para conseguir espaço para o orquestra, quando a massa está acostumada a ouvir sertanejo, rock, pagode, entre outros estilos?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - É uma coisa que sempre discuto com o pessoal. Como as pessoas estão acostumadas com a chamada música de mídia, elas se acostumam com um tempo de concentração muito curto. Se você parar para pensar profundamente, a música de mídia não é para ser ouvida, mas para ser colocada como fundo para alguma coisa. Normalmente é para ser colocada durante a festa, e acaba sendo o que a gente chama nos estudos como “ruído de fundo controlado”. Você dificilmente para em uma festa ou em um churrasco com a finalidade de ouvir a música que está tocando. Ela está ali para ser uma música de fundo. Ou, em outra situação, é usada na balada, para dançar. Já a música que é feita para concentração é para você sentar e ouvir. Exige tranquilidade.
O DIÁRIO - Há mercado local para as música erudita?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Sim. As próprias ações da Prefeitura de Maringá, com o projeto Convite à Música, têm demonstrado isso, pela participação de um público cativo. Nosso desejo no Departamento de Música da UEM foi sempre dialogar com a cidade. Nossa função é fazer a cultura da cidade crescer. Maringá é maravilhosa. Eu que sou de São Paulo me apaixonei. A cidade tem uma infraestrutura belíssima e um público muito maduro e que gosta desse repertório.
O DIÁRIO - O senhor percebe as reações do público que não está muito acostumado ao repertório da música erudita?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - O que acontece é que as pessoas, às vezes, acabam, digamos assim, entediando-se diante de uma uma apresentação erudita porque não estão acostumadas com uma música que precisa de concentração. Geralmente faço um desafio às pessoas: lembre de um CD dessas músicas de mercado e realmente pare para pensar se você colocou ele no aparelho, sentou na sala e se dedicou a escutar todas as faixas, do começo ao fim. Ele não é feito para isso porque não é a função dele. Cada tipo de música tem o seu papel específico e a pessoa só precisa estar disposta a curtir aquele ritual. Cada música exige seu rito próprio e, no caso da erudita, o necessário é concentração e tranquilidade para curtir. Existe todo um discurso lógico por trás da música erudita, um conjunto de elementos de uma forma estrutural, que você tem que parar e ouvir com concentração. Logicamente que uma música sinfônica não vai funcionar em uma festa, na verdade vai até atrapalhar. Porque a música erudita exige concentração para que você curta ela em todo seu potencial.
O DIÁRIO - Como surgiu a ideia de criar uma orquestra na UEM?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Uma das responsabilidades que a gente tem, enquanto Departamento de Música em curso de graduação, que é especificado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é sempre fazer com que o curso se comunique o máximo possível, ou sempre esteja avaliando o mercado de trabalho. Isso para que a gente direcione o perfil do nosso aluno para o mercado. E no nosso curso de graduação o que acontece é que os alunos se formam e têm uma certa dificuldade de inserção, por não ter na região uma orquestra profissional para continuarem a carreira. Por essa responsabilidade pedagógica, falamos: bom, temos que criar uma orquestra no departamento para preparar esses alunos para o mercado e fomentar o desenvolvimento desse mercado em toda a região. Pretendemos criar esse nicho na cidade para que o mercado se desenvolva para uma orquestra profissional, para onde os próprios alunos possam seguir.
O DIÁRIO - A intenção é que as apresentações sejam frequentes?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - A pretensão é que até o final do ano a gente consiga organizar pelo menos um concerto mensal para o público. Hoje, a orquestra já tem ensaios semanais, que acontecem todas as quintas-feiras e são abertos ao público, às 18h30, no Teatro Oficina da UEM.
O DIÁRIO - Quem participa da orquestra?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Alunos de todos os anos do curso de graduação em Música, desde o primeiro até o quarto ano, e também músicos da cidade, alguns inclusive formados pela gente, além de pessoas que tocam há muito tempo.
O DIÁRIO - Houve dificuldade em convencer os músicos da cidade a participarem da orquestra?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Não. Foi até um desejo deles mesmos, de poder fazer esse repertório. A maioria desses músicos se formou nisso. Agora, a procura está grande, inclusive. Temos que fazer testes porque começa a ter um pouco de fila de interessados em participar.
O DIÁRIO - Quais os detalhes que foram necessários para tirar o projeto do papel?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - São 42 músicas, então tivemos que conciliar horários. Também conseguimos negociar dez bolsas com a reitoria, além do apoio de um patrocinador que nos ajudou bastante com a infraestrutura. Foi um processo de desenvolvimento dentro do normal. Desde a criação do Departamento de Música, o fortalecimento do curso, conseguimos ganhar um bloco próprio, ainda que provisório. O curso surgiu há apenas sete anos e agora está ganhando fôlego para investir nessas ações. Agora vamos seguir em frente, buscando mais patrocinadores. O importante é que a UEM abraçou a orquestra. Ela tem todo o apoio total da instituição.
O DIÁRIO - Quais as metas da orquestra?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Que ela se profissionalize, mas sem nunca perder o papel pedagógico. Ela é um espaço de formação, que é importante para o curso. É uma responsabilidade social, mas também uma responsabilidade didática que a gente tem que ter. E, finalmente, que ela vire uma sinfônica.
O DIÁRIO - A UEM tem a intenção de ter uma orquestra profissional?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Sim, como é a orquestra da Universidade de Londrina. Uma orquestra profissional, mantida pelo Estado, que não tem o objetivo de dar lucro. Mas além disso, nosso objetivo é dar a oportunidade para o público ter acesso, com mais frequência, ao repertório sinfônico, sem esquecer do papel pedagógico.
O DIÁRIO - Há o intuito de obter lucro?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Como é uma orquestra criada dentro da universidade, ela não tem o objetivo de dar lucro.
O DIÁRIO - Os patrocinadores suprem quais necessidades da orquestra?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - Um dos patrocinadores, por exemplo, forneceu todas as estantes para partituras e todas as pastas para arquivo. Mas ainda estamos verificando como vai ser essa ideia de patrocínio para a orquestra, quais são as coisas que mais vamos precisar. Vamos com calma, porque tudo aconteceu muito depressa. A orquestra se formou, oficialmente, em abril deste ano.
O DIÁRIO - O que falta para ela virar uma sinfônica?
RAEL BERTARELLI GIMENES TOFFOLO - É completar os naipes de madeira que são o oboé e o fagote (instrumentos de sopro). Para esses dois ainda não encontramos instrumentistas na região. Precisamos desses instrumentistas, além do naipe de percussão, mas para esse item não é problema. Instrumentista de percussão é mais fácil de conseguir, mas o problema é que para tocar repertório que tem percussão você tem que ter o oboé e o fagote antes.
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