‘Convivi com o medo coletivo’
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“Uma fonte inesgotável de inspiração”. Assim o jornalista José Antonio Pedriali define a a profissão pela qual optou, “como canal para chegar à literatura” e escrever, enfim, “os livros de ficção que havia proposto escrever na adolescência”.
Na entrevista a seguir, Pedriali conta como o jornalismo – ou mais exatamente a reportagem – está na gênese dessa sua primeira obra de ficção, já não mais apenas a fornecer-lhe a técnica, o ritmo e a urgência da escrita, mas também o próprio tema da história, o assunto de que sua imaginação se valeu para compor “Fuga dos Andes”.
O escritor e jornalista conta como, no berço do Sendero Luminoso, em Ayacucho, no Peru – onde estava a serviço do jornal O Estado de São Paulo para uma série de reportagens – obteve “uma fonte preciosa na cúpula do exército” e testemunhou uma morte no hotel em que se hospedava. “A idéia surgiu nesse momento, foi reforçada por viagens posteriores e somente se consumou 23 anos depois”. Confira a entrevista de José Antonio Pedriali a O Diário.
O DIÁRIO - Como surgiu a idéia para escrever “Fuga dos Andes”?
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI - Quando visitei Ayacucho, Peru, pela primeira vez, em 1983, viagem que resultou numa série de reportagens, publicadas no ano seguinte por um jornal de São Paulo de circulação nacional. Encontrei um cenário que só havia visto em filmes: uma cidade de arquitetura colonial, habitada por uma população predominantemente indígena, cercada por montanhas – montanhas históricas, pois elas assistiram à última batalha pela independência da América, em 1824 – e dominada pelo medo. Foi lá que o Sendero Luminoso surgiu, três anos antes, tendo como núcleo central professores e estudantes da Universidade de Huamanga. Convivi com o medo coletivo, desviei-me, para não ser atropelado, de viaturas militares e blindados de presença ostensiva, apanhei de um soldado, obtive uma fonte preciosa na cúpula do exército e testemunhei uma morte no hotel em que me hospedava. A idéia surgiu nesse momento, foi reforçada por viagens posteriores e somente se consumou 23 anos depois. Uma longa gestação, que, no entanto, redundou num parto rápido – escrevi “Fuga dos Andes” em exatos 100 dias, no final de 2006.
O DIÁRIO - Depois de um livro com uma reportagem autobiográfica (“Guerreiros da Virgem - a vida secreta na TFP”) e duas biografias (“Wilson Moreira e a política da eficiência” e “Dalton Paranaguá e a construção do futuro”) publicadas, como é mudar para o campo da ficção e escrever um romance?
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI - A mudança é radical, mas longamente desejada. Só me propus a colocá-la em prática ao completar 51 anos – uma boa ideia? -, e me perguntar onde estavam os livros de ficção que havia proposto escrever na adolescência, quando optei pelo jornalismo como canal para chegar à literatura. O jornalismo, praticado durante trinta anos na imprensa regional do Paraná, meu Estado, e na nacional, foi e está sendo essencial para a consumação desse desejo. Com quantos acontecimentos e pessoas nos defrontamos no dia a dia do exercício do jornalismo,
O DIÁRIO - capazes de sugerir livros – sejam fiéis aos fatos reais ou apenas baseados neles?
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI - O jornalismo é uma fonte inesgotável de inspiração.
O DIÁRIO - Apesar da trama intensa de intrigas, espionagem e violência, com relacionamento de Humberto e Beatriz, o romance ganha contornos de uma história de amor. Como foi o processo de criação e como você define o romance?
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI - A ideia do livro, surgida durante minha viagem a Ayacucho, foi enriquecida com o passar do tempo. Tentei várias vezes dar início ao livro, mas não me sentia maduro e, além do mais, não tinha uma história que se sobrepusesse à do Sendero. Eu não queria um livro de reportagem sobre o Sendero, mas um romance tendo o Sendero como pano de fundo - um misto, portanto, de ficção e realidade. Ou seja, eu tinha o cenário, mas não os personagens e menos ainda uma história com começo, meio e fim e que fosse envolvente. O primeiro personagem que surgiu foi Beatriz. Ela impede que Humberto, com quem protagoniza a narrativa central do livro, tenha o mesmo fim que seus oito colegas peruanos que viajaram ao coração dos Andes para investigar o massacre de um destacamento guerrilheiro atribuído aos camponeses. Todos foram mortos na aldeia de Uchuraccay, um massacre que abalou o mundo. Este é um fato real, infelizmente. O relatório final da Comissão de Verdade e Reconciliação, divulgado em 2003 e que faz um balanço dos 20 anos de guerra desatada pelo Sendero Luminoso, foi uma fonte preciosa. O documento historia e analisa os acontecimentos gerados pelo Sendero no atacado e se debruça no varejo sobre casos emblemáticos. Um deles é o massacre de Uchuraccay. Esse documento me inspirou dois personagens de grande destaque na obra: o índio Telésforo Galvez Gavilán, de Uchuraccay, e o comandante Davi, o menino de 12 anos arrancado do lar para se incorporar às fileiras do Sendero, às quais se entregou com fervor juvenil.
O DIÁRIO - Uma definição para “Fuga dos Andes?”
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI - O contraponto da beleza – o amor entre Humberto e Beatriz – e o ódio – a violência desatada pelo Sendero. E um tratado sobre as consequências do fanatismo, qualquer que seja a roupagem que assuma.
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