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D+  |  Livro  | Criado 21/10/2009 02h00
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As dez vozes do escuro

“A parede no escuro”, de Altair Martins, diferencia-se pela variedade da linguagem e dos pontos de vista de seus dez narradores; livro é ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura e finalistas do Jabuti

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Wilame Prado
Especial para O Diário

 

Dependendo do modo como uma pessoa se expõe em sua linguagem, e atentando-se aos assuntos que, volta e meia, compõem o enredo de sua fala, consegue-se conhecê-la melhor.

É por meio da oralidade, representada nas palavras proferidas pelas pessoas, que os personagens do livro “A parede no escuro”, de Altair Martins, vão se revelando e se caracterizando. O romance foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “Melhor Livro de Estreia do Ano”.

São mais de dez narradores no livro. Em muitas páginas, o leitor encontrará um mesmo fato descrito por mais de um narrador. Isso enriquece a cena imaginada e estimula um raciocínio lógico de que a verdade nunca é absoluta e que é dependente do ponto de vista de cada um.

O exercício narrativo proposto por Martins é arriscado no campo da literatura. O autor gaúcho, para produzir o romance, nadou em águas turvas da criatividade, que poderiam muito bem tê-lo arrastado à superficialidade. Mas isso não aconteceu.

O resultado final, além de todos os prêmios conquistados, inclusive sendo um dos finalistas ao Prêmio Jabuti de melhor romance, foi uma obra genial, que exala originalidade (pelo menos quando comparado a escritores brasileiros) e riqueza estética literária. Uma prosa quase poética.

O difícil é imaginar como o autor de “A parede no escuro” conseguiu a proeza de criar tantos narradores, cada qual com suas especificidades, e os consequentes discursos relatados no livro. Em entrevista ao jornal literário “Rascunho”, Martins revela um pouco de sua labuta para tal feito.

“Escrever, para mim, é antes de tudo escutar. E colher. Meu laboratório é meu dia-a-dia: estou sempre coletando sucata. Por isso, para a elaboração de tantos narradores diferentes, adotei envelopes com seus nomes, dentro dos quais fui depositando frases e estruturas sintáticas que me pareciam convir com cada um deles”, revela o escritor.

Nesse exercício atento de observação e coleta de dados, Martins incorporou nos personagens características de pessoas conhecidas, como sua mãe, seu padrasto, professores colegas de trabalho e até alunos.

“Onira tem a sintaxe de minha mãe; Adorno, de meu padrasto; colhi o Coivara de vários professores de cursinho com os quais convivi, e ele tem um pouco da minha linguagem também. Já o Emanuel nasceu da sintaxe de textos dos alunos, algo como uma escrita aos pedaços, com referentes anafóricos desnecessários, com frases viúvas”, explica, na entrevista, a gênese dos personagens do livro.

Em meio a constantes relatos dos narradores, ora representando diálogos, ora representando seus pensamentos, o ponto de partida da trama é o atropelamento e morte do padeiro Adorno. A partir deste fato, o leitor conviverá principalmente com os dramas psicológicos de Emanuel, filho de Fojo, vizinho de Adorno, e supostamente o autor do crime, e de Maria do Céu, filha do padeiro.

Embora Martins negue ter se inspirado em “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, cabe uma comparação entre Raskólnikov e Emanuel, ambos totalmente abalados psicologicamente em razão da culpa que pesa na consciência e com a insana necessidade de desabafar o crime.

Os diálogos entre os professores Emanuel e Coivara acabam levando ao leitor um cenário contundente, mas infelizmente desastroso, da situação atual do ensino brasileiro. É nas palavras de Coivara (que sofre o peso do preconceito dos alunos por não ter um dos braços) que as críticas mais ácidas do sistema são feitas.

Emanuel, enquanto ouve os discursos inflamados do professor de História, encontra-se preocupado com o atropelamento praticado, com a relação amarga entre ele e seu pai e também com a ordem dos copos na mesa e a limpeza do chão abarrotado de giz esmagado – um dos personagens principais do livro parece sofrer de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Esse é só um dos tantos episódios que merecem destaque em “A parede no escuro”. Outro exemplo de maestria linguística e capacidade de conseguir transformar acontecimentos em literatura é a descrição dos pensamentos e sentimentos de Maria do Céu, ao saber da morte do pai.

Recém saída de casa, e ainda colecionando as palavras amargas da última briga com Adorno, o processo digestivo de aceitação da morte se dá aos poucos, com riqueza de detalhes e com surtos de sordidez, raiva, desprezo e, por fim, aceitação.

Das primeiras páginas até o fim do livro, a parede da casa de Adorno, o padeiro atropelado, configura-se quase como um outro personagem, representando a figura onipresente necessária para que o leitor entenda os dramas vividos pelo padeiro, por sua mulher, Onira, e por Maria do Céu, antes e depois do
atropelamento.

Em determinado momento do livro, dias depois da morte de Adorno, Onira pensa alto: “E tem vez que eu penso que tu não partiu ainda, e eu dou uma cochilada e me acordo assustada, porque parece que eu tenho que levar uma toalha seca ou esquentar um leite ou arrumar uma outra coisa da casa. Me dá uma tremura nos nervos por causa que parece que tu pega e te esconde atrás de cada parede.”

No escuro, a parede da casa torna-se testemunho de alguns episódios cruciais na vida de Adorno e de sua filha. Graças a um desses fatos marcantes ocorridos na vida de Maria do Céu, ela consegue uma redenção justificada pelo que pensa ter cometido: a morte do pai.

Nesse ponto, ela se parece muito com Emanuel, que vive suportando um peso de simplesmente não sentir nada pelo pai, ao fato de estar, num bar, tomando um porre homérico e criando coragem para desabafar ao amigo Coivara o crime cometido, enquanto o velho Fojo, numa cama de hospital, parece viver os últimos momentos de sua vida. Emanuel também acredita que matou seu pai.

Todos os personagens de Martins vivem se culpando ou reclamando de algo. Sua literatura não vem com enfeites ou prioriza histórias límpidas e maquiadas de pessoas quase irreais, tão comuns na literatura.

Em “A parede no escuro”, o escritor gaúcho, ao dar voz a pessoas simples, tão bem caracterizadas por seus discursos verossimilhantes, enraizadas nas tradições gauchescas de determinada cidadezinha interiorana e sem muitas ambições para o futuro, consegue traduzir a vida como ela é, por mais cretina que possa parecer.

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