O Diário do Norte do Paraná
http://www.odiariomaringa.com.br/orivaldo - Acessado em: 15/03/2010 às 23:15:57

De Passagem

Rigorosamente fiéis às especificações da moda, requintados trajes praianos denotavam o berço de ouro dos elegantes corpos morenos

Quaresma e consumismo

Permitiu-me a sorte, uma vez na vida, férias no Guarujá. Foi há coisa de vinte anos ou mais, com alguns colegas. Verdade é que não passaram de cinco dias, num final de temporada, em apartamento emprestado por um irmão de padre Julinho, residente em São Paulo.

Teve ele a delicadeza de ainda pôr-nos à disposição a funcionária de sua família para nos atender nos afazeres domésticos. A prudência, quem sabe, o tivesse advertido a não deixar por conta de meia dúzia de marmanjos uma propriedade que poderia encontrar, depois, transformada em palco arrasado por um furacão. Asseguro, entretanto, que nos comportamos com exemplar organização e cuidado.

Nenhum calção de banho tremulou nas janelas como bandeira de país desconhecido. O grupo se compunha de seis por exigência do caixa. Tínhamos que rachar despesas de viagem e alimentação.

Foram dias bem agradáveis. Uma mostra longínqua do luxo e do conforto disponíveis a parcela considerável da população. Calculo o desdém dos que curtem férias em paraísos de que nunca ouvi falar nem sei onde ficam. Mas para meia dúzia de padres maringaenses do final dos anos 80, Guarujá era o máximo do luxo possível.

Não faltará quem, tentando ser espirituoso, venha com o surrado comentário sobre a “vida de padre”. Há mais de cinquenta anos, tento descobrir o que é isso. Se a idéia é apontar um jeito de viver na riqueza, ostentação e conforto, desconfio que morrerei sem encontrá-lo. Existe só na desinformação de quem fala simplesmente porque tem boca, não algo aproveitável para dizer.

Descobrimos à beira-mar um barzinho que servia delicioso café da tarde. Bem mais jovens, na época, e mais magros, nós nos demos o direito de visitá-lo em duas ocasiões. Era o que nos permitia a abastança de nossos bolsos.

Sentados às mesinhas da calçada, contemplávamos garotos sarados e meninas de corpos esculturais que, sabe Deus há quantos dias, desfrutavam aquele ócio privilegiado. Rigorosamente fiéis, creio eu, às especificações da moda, requintados trajes praianos denotavam o berço de ouro dos elegantes corpos morenos. Não bastasse isso, vistosas caminhonetes e automóveis de luxo, com placas do abastado interior paulista, produtor de laranja e cana, falavam alto dos milhões de suas origens. Não lembro a unidade monetária da época; o real não tinha nascido.

Difícil fugir a uma questão (maldosa ou apenas realista). Quanto já tinha gasto na praia aquela garotada? Havia adolescentes também, às pencas, aí na faixa dos catorze, quinze anos. Um único dentre eles, com seu trabalho, tinha comprado uma caixa de fósforos ou um rolo de papel higiênico? Ou lavado uma xícara, enxugado um prato?

Essa não é idade de ganhar dinheiro, eu sei, mas de estudar. Então, todos teriam mesmo estudado durante o ano letivo?

Foi há quase trinta anos. Desde então, o quadro melhorou?

Será que alguém discute a oportunidade de lembrar, como a Campanha da Fraternidade deste ano, que “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24)?

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