O Diário do Norte do Paraná
http://www.odiariomaringa.com.br/trivial - Acessado em: 21/03/2010 às 15:01:29

"Parecia que uma força invisível atraiu cada um deles para, unidos, dar um basta no que já havia extrapolado o limite do insuportável"

O sonho

Esta noite eu tive um sonho. Nele, uma multidão se reunia. Pessoas de todas as cores, classes, crenças e matizes políticos marchavam juntas em direção a um dos muitos prédios públicos onde grassava a corrupção, naquele local que era o palco dos acontecimentos da quimera que se desenvolvia tarde da noite. Toda aquela gente compratilhava uma, e apenas uma, característica em comum: eram pessoas de bem.

Não havia gritos de protesto, carros de som com discursos de quem quer que seja. Na verdade, parecia que uma força invisível (indignação, talvez?) atraiu cada um deles, separando-os de suas atividades comezinhas para, unidos, dar um basta no que que já havia extrapolado o limite do insuportável.

Aquela massa caminhou, chegou na tal edificação. Com tranquilidade, avançaram nas entranhas do prédio e, um a um, foram retirando de lá todos aqueles que haviam malversado dinheiro público, fraudado licitações, concedido benefícios e empregos a parentes e apadrinhados... Não houve linchamento, agressão ou violência. Simplesmente foram pegos pelo colarinho e expulsos daquela terra e proibidos de voltar, não sem antes terem todos os seus bens – e de quem quer que tenha participado daqueles atos espúrios – confiscados.

Após a limpeza, as pessoas conversaram e encontraram meios de evitar que aquilo acontecesse de novo. E, caso fatos como aquele se repetissem, assumiram o compromisso de marcharem juntos novamente. Sem líderes, sem necessidade de cargos públicos ou de criação de entidades não- governamentais.

Findo o processo, cada um foi para sua casa, e – o mais estranho – não se comemorou o acontecido. Aliás, sentiam todos um misto de tristeza e decepção, pois muitos dos prejuízos jamais poderiam ser sanados. Pessoas haviam morrido porque recursos que deveriam ter sido enviados para a saúde, segurança, fiscalização do trânsito acabaram parando nas contas de meia-dúzia de mal-intencionados... Essas, não havia multidão que pudesse se juntar e trazer de volta.

Acordei do sonho e voltei ao pesadelo da realidade, nua, crua e – parece-me – sem perspectivas de mudança no decurso de minha existência, seja lá quanto ela dure.

Busquei um significado para aquele devaneio onírico que me foi apresentado (ou foi por mim criado?) durante o sono. Fui da psicanálise à religião, e voltei sem resposta para o que teria motivado aquela peça de ficção, aquela utopia simplesmente inexequível no mundo real.

E, apesar do universo de incompreensão, inação e individualismo que nos cerca, consegui extrair daquela experiência etérea um resquício de esperança – e a força para resistir mais um dia nesse vale de sombras...

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