O Diário do Norte do Paraná
http://www.odiariomaringa.com.br/noticia/235355/ - Acessado em: 19/03/2010 às 9:08:42

D+  |  Literatura  | Criado 07/02/2010 02h00
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‘Preciosa’além do cinema

“Preciosa”, romance de estreia da escritora norte-americana Sapphire, ganha notoriedade pelo sucesso de sua adaptação para o cinema, mas também tem o seu valor como literatura

Obrigado por avaliar.

Wilame Prado
Especial para O Diário

 

A história de Claireece Precious Jones – uma adolescente negra, obesa, analfabeta e que é molestada pelos pais – relatada no livro “Preciosa” (editora Record, 2010), da escritora Sapphire, foi adaptada, ano passado, para o cinema pelo diretor Lee Daniels e contou com produção da conhecida apresentadora de televisão norte-americana Oprah Winfrey.

O resultado, nas telonas, não poderia ser melhor. Além do sucesso incontestável no Festival de Sundance 2009 e louros em outras premiações, “Preciosa” recebeu oito indicações ao Oscar, inclusive na categoria de melhor filme do ano.

Mas todo esse sucesso cinematográfico, que costuma chegar ao Brasil antes mesmo do que o próprio livro, tende a ofuscar o talento de quem realmente gerou a conturbada e dramática Precious Jones – personagem principal da trama. Trata-se da poetista e artista perfomática Sapphire, que, com “Preciosa”, recém-lançado no país, faz sua estreia como romancista.

Pelo menos aqui no Brasil, o leitor que adquirir um exemplar do livro de Sapphire já terá uma imagem pré-formulada da personagem principal do livro. Isso porque, na capa, há uma imagem da atriz Gabourey Sidibe (indicada no Oscar ao prêmio de melhor atriz), que protagonizou Precious Jones no filme de Lee Daniels.

Para quem gosta de construir imageticamente os personagens apresentados nas obras de ficção, ver uma foto do personagem principal, ou até mesmo assistir ao filme antes de ler o livro, não é algo que agrada muito.

Mesmo assim, o leitor que se embrenhar nas ligeiras 192 páginas de “Preciosa” ainda poderá exercer sua imaginação com a fascinante, cruel e redentora história da adolescente Clareece Precious Jones. Inspirada numa realidade deprimente que pôde conhecer quando ensinava adultos e adolescentes a ler e a escrever no bairro nova-iorquino do Harlem, a autora da obra conseguiu criar uma personagem cativante, símbolo de toda a pobreza, ignorância, preconceitos e ausência de oportunidades que cercam os jovens, principalmente do sexo feminino, em localidades pobres dos Estados Unidos.


Erros propositais

O livro, narrado em primeira pessoa pela Precious Jones e passado entre os anos da década de 1980, é escrito propositalmente, do começo ao fim, com erros ortográficos, dando um ar mais realista e intimista para a obra.

A história se inicia com Precious contando porque reprovou na escola quando tinha 12 anos, idade em que o martírio da garota começa a ser relatado com um acontecimento marcante: sua gravidez precoce sendo fruto de uma relação sexual forçada pelo próprio pai.

Mas isso é só o começo de uma história de sofrimentos. Precious, além de obesa, analfabeta e vítima das vontades sexuais ensandecidas do pai, ainda é constantemente humilhada pela mãe, que a faz de escrava doméstica, obriga a satisfazê-la com masturbações e, depois que descobre que ela está grávida do seu marido, começa a agredi-la verbal e fisicamente.

Depois de uma surra levada da mãe, a garota finalmente dá à luz no chão da cozinha. No hospital, descobre que sua filha tem Síndrome de Down, o que a faz deixar a menina, batizada de Monguinha, sob os cuidados da avó.

Depois desse acontecimento, a mãe de Precious consegue receber da previdência duas fontes de renda. Nunca mais sai de casa. E presencia, sem ressentimentos, as relações incestuosas entre seu marido e Precious.

Completados 16 anos, a garota, que sofre todo e qualquer tipo de preconceito na escola, lugar onde senta na última carteira e espera o sinal tocar, muitas vezes urinando nas calças por sentir vergonha de se levantar, descobre a segunda gravidez, também fruto da relação sexual com o pai. Quando já não é possível mais esconder de ninguém a nova gestação, a direção do colégio decide expulsá-la.

Todo esse drama de Precious é narrado por Sapphire na primeira parte do livro, em aproximadamente 40 páginas. Na segunda parte, é perceptível que está se iniciando uma mudança positiva na vida da garota negra, coincidindo com o fato de ela começar a participar da Educação Alternativa/Cada Um Ensina Um e, assim, poder conhecer outras meninas também marginalizadas (mexicanas, viciadas em drogas, lésbicas).


Fragmentos

Na escola “alternativa”, Precious conhece também a professora Blue Rain, provavelmente um alter-ego da autora, personagem que fará com que a jovem consiga recuperar a dignidade, aprender a ler e a escrever e, assim, expressar-se por meio de textos e poesias em seu diário – cujos fragmentos fazem parte de todo o livro.

Caso, a partir de então, conhecendo pessoas com os mesmos problemas e uma professora que auxilia no processo de libertação, tudo começasse a dar certo na vida da sofrida Precious Jones (o que geralmente não acontece na realidade), o livro certamente seria considerado mais um roteiro hollywoodiano e clichê disfarçado de romance.

Porém, isso não acontece. A garota, que em toda a trama se mostra extremamente crítica e revoltada com sua situação, mas que começa a encontrar pela primeira vez a esperança de que algumas coisas podem mudar, ainda assim passa por muito sofrimento e angústia.

A cada página virada, Precious vai provando ao leitor porque pode e deve ser considerada uma garota preciosa e adorada, longe de toda a estupidez humana demonstrada pelas atitudes inconsequentes de seus pais e também da sociedade como um todo.

O livro “Preciosa”, assim como provavelmente o longa-metragem, será visto por muitos como mais um exemplo de vida, uma lição de superação, como a história de uma garota negra e gorda que venceu os obstáculos. Fosse apenas isso, os livros de autoajuda já bastariam.

A obra de Sapphire vai além, pois, com criatividade e sensibilidade, cospe ao mundo, de maneira realista, o triste relato de Claireece Precious Jones – alguém que sofre em demasia numa sociedade extremamente individualista, machista, racista, fetichista e cruel.

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